06 abril, 2013

JESUS: PRONTO PARA A VIDA MISSIONÁRIA

J. B. Libanio

A preparação foi longa. 30 anos na forja de Nazaré. O aço já está bem temperado. Jesus sai de casa deixando atrás de si a mãe e os familiares. É o corte com a família, com o estilo de vida passado. Deixa de ser o camponês e o artesão de Nazaré. Faz-se missionário andarilho.

O batismo: rito inicial

Já a teologia do Novo Testamento ficou intrigada com o rito do Batismo de Jesus. Algo perturbador na consciência eclesial por se tratar de um batismo de penitência, de conversão, administrado por João. Os evangelhos se situam diante dele diferentemente.

Marcos e Mateus narram claramente o batismo administrado por João. Lucas omite o gesto do Batista. O evangelho de João deixa o fato na penumbra, com mera alusão ao descer do Espírito. Apesar disto, a narração de um fato tão embaraçante deve basear-se em algo acontecido. Não passaria pela cabeça de ninguém criar um midrash que antes dificulta que ajuda a teologia de Jesus Senhor, desenvolvida pela primeira comunidade. Os evangelistas reduzem o incômodo fato a seu mínimo de real.

Com efeito, a uma primeira vista, para a comunidade primitiva que tinha experimentado tão radiosamente o senhorio de Cristo ressuscitado, defrontar-se com um Jesus submetendo-se ao batismo de João, era, no mínimo, algo desconcertante.

Este desconforto vinha tanto da natureza do batismo como da dependência à pessoa de João Batista. O batismo era um sinal de penitência e de conversão dos pecados diante do dramático apelo escatológico de João.

Ele anunciava o fim de um tempo de tolerância para Israel, infiel a Javé. Não tivesse bastado a provação do Cativeiro da Babilônia, eis, de novo, sobretudo os líderes religiosos e políticos do povo, querendo fugir "da ira" a vir (Mt 3,7). "O machado já está à raiz das árvores e toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo" (Mt 3,10). Está para chegar aquele que "tem a mão na pá e limpará bem sua eira: recolherá o trigo no celeiro. A palha, porém, vai queimá-la no fogo inextinguível" (Mt 3,12). Pertencer ao Povo de Israel não basta para escapar da cólera de Deus, mas é preciso produzir "frutos de conversão" (Mt 3,8).

Ora bem, Jesus, ao enfileirar-se entre os pecadores, não estava confessando-se também ele pecador e desejoso de escapar da cólera de Deus? Não estava também vinculando-se ao discipulado de João? Que escândalo para a fé no Senhor da comunidade!

Os evangelistas diante desse duplo escândalo trabalham teologicamente o texto diferentemente. Mateus descarta, logo de início, qualquer possibilidade de inferioridade de Jesus em relação a João. Logo que Jesus se aproximou com a intenção de fazer-se batizar, João afirma categoricamente a inversão da situação. Ele que deve ser batizado por Cristo. Lucas resolve o problema, relatando o batismo de Jesus depois da prisão de João, tirando-o de cena. João evangelista vai mais longe. Omite totalmente o batismo. E afirma peremptoriamente a superioridade absoluta de Jesus sobre João, desde o prólogo. João não era a luz, mas simples testemunha da Luz. Esta é o Verbo feito carne, Jesus Cristo (Jo 1,9-14).
Desta sorte, os evangelistas eliminam teologicamente o problema da inferioridade de Cristo em relação ao Batista. Ficava ainda a questão do fato mesmo do batismo. Os três relatam uma teofania que oferece o sentido teológico do batismo. Três sinais marcam a cena. Os céus se rasgam, uma voz do céu ecoa e o Espírito desce em forma de pomba.

Israel vivera longa experiência sem profetas. Os céus pareciam fechados. Vicejara uma literatura sapiencial e apocalíptica em lugar da profecia. A falta de profeta era vista como prova e castigo de Deus (Sl 74,9).

A vinda de João Batista, profeta, já foi maravilhoso sinal de esperança. Mas o interesse do evangelista é mostrar o significado original e superior de Jesus. O rasgar-se dos céus indica a inauguração de uma "nova era". O mundo dos homens pode comunicar-se com o mundo de Deus, não por meio da pretensão de construir uma torre até os céus, mas pela disposição de os ceús descerem até os homens.
O sinal mais significativo, porém, é a voz do céu. Só pode ser de Javé, o Senhor Deus de Israel. Ele pronuncia um versículo do Salmo (2,7), muito conhecido dos judeus, referente à entronização do Rei Davi em Jerusalém. É um salmo da realeza, com perspectiva messiânica, aplicado diretamente a Jesus. Marcos e Mateus ainda acrescentam ao substantivo "filho" o adjetivo "predileto". Quem sabe uma longínqua alusão a Isaac, o filho predileto de Abraão (Gên 22), numa antevisão do Jesus a caminho da morte?!

Os mesmos dois evangelistas acrescentam outro pormenor bíblico ao indicar que nele Deus põe toda sua complacência. De novo, um toque de leve à figura do Servo de Javé (Is 42,1), aludindo ao caminho que mais tarde Jesus trilhará até a cruz.

E um terceiro sinal é a descida do Espírito Santo em forma de pomba. Clara alusão aos tempos messiânicos. É a unção do Espírito. Lá no início do mundo, o Espírito pairava sobre as águas. Em Pentecostes, o texto de Joel (3, 1-5) sobre a efusão do Espírito é aplicado a nova Igreja que nasce. No Batismo, nasce o Messias. Numa palavra, Jesus, e não João, é o Messias real davídico, o Filho predileto de Deus, o ungido pelo Espírito, em que Javé se compraz.

Numa perspectiva dos pobres, o fato do batismo de Jesus não é, de modo nenhum, constrangedor, mas antes sumamente revelador da sua opção radical e coerente. Continua na linha de Belém e Nazaré. Em Belém, nasceu pobre. Em Nazaré, viveu na simplicidade pobre de um camponês e artesão. Agora, faz-se ainda mais pobre, mistura-se com os pecadores e marginalizados de seu tempo. Aliás será uma marca de sua vida esta proximidade com as pessoas desprezadas e excluídas do convívio social e religioso. O batismo revela, sob outro ângulo, o paradoxo do divino e do humano da Encarnação, da história e do dogma, da humilhação (kénosis) e da glória (doxa) de Jesus. O Verbo, ao assumir a nossa humanidade, quis ir até o fundo de nossa realidade. Não hesitou em tomar a condição de escravo (Fl 2,7), colocando-se na fila do povo pecador à espera de sua hora batismal. Mas, nem por isso, deixou de ser de condição divina, que a voz do céu proclamou, que o Espírito testemunhou e que os céus abertos revelaram.

O fato histórico do batismo sofreu também o processo de dogmatização. A pura história não nos revela quem é Jesus. A Constituição dogmática Dei Verbum ensina-nos que a Revelação se processou "em gestas e palavras". A gesta de Jesus não foi nenhuma aventura grandiosa, mas a simplicidade escondida de ser um entre todos na escola penitencial do Batista. Ela revela o lado humano, encarnatório de Jesus. Comprometido com os menores do mundo.

A Palavra veio logo ampliar-nos o sentido, eliminar qualquer equívoco. Lá no escondimento do Batismo, está o homem Jesus, mas também ele é o Filho predileto de Deus, o Cristo Senhor da comunidade de fé. É o dogma assumindo a história, rasgando-lhe sentido mais rico. A história, por sua vez, dá realismo ao dogma, não o deixando perder na abstração da recitação de uma fórmula.

E o terceiro paradoxo do Batismo de Jesus, que atravessa toda sua vida, é o jogo da humilhação e da glória. Os sinóticos carregam as tintas na humilhação. João atenta para o lado da glória. Completam-se. Não se contradizem, já que Jesus é, ao mesmo tempo, o Esvaziamento do Divino, e a Sublimidade do humano. A humilhação aparece na cena de Jesus inclinado diante de João, como um inferior, na fila dos pecadores, recebendo o Batismo. A glória veio logo em seguida do alto dos céus, proclamando para toda a comunidade de fé a identidade profunda de Jesus, sua excelsa superioridade em relação ao Batista.

Olhando para criança de Belém, o poeta português Fernando Pessoa nos sintetiza belamente esse parodoxo de Jesus. 

"Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro
E a criança tão humana que é divina."

O teste das tentações

Se o batismo assusta os dogmáticos que encurtam a humanidade de Jesus, que dizer das tentações? O paradoxo da Encarnação vai mais longe ainda. De novo, a história e o dogma se encontram em síntese belíssima. A humilhação e a glória marcam seu lugar.

Mais uma vez temos um fato real, histórico. Jesus foi verdadeirmente tentado na sua vida terrestre a afastar-se do cumprimento de sua missão. Em vários momentos, os evangelhos mostram-nos Jesus colocado em situação em que é provocado a seguir um caminho diferente. O diferente veste-se de ambigüidade para Jesus. Ora expressa o projeto do Pai que fala ao filho através dos acontecimentos, ora é real tentação.

Desta sorte, aquele que começara livremente a pregar às multidões, diante da recusa de tantos de ouvi-lo, da crescente oposição ferrenha de seus inimigos, do claro plano de matá-lo, modifica seu ministério. Dedica-se mais ao círculo restrito de seus discípulos. Nesse sentido, o anúncio do Reino lentamente se transforma na preparação da Igreja. Não parecia previsto por Jesus, mas lido por ele por meio dos acontecimentos. O diferente foi a fala de Deus para ele.

Viera também convicto de restringir-se à pregação e às ações simbólicas do Reino dirigidas unicamente ao povo de Israel. Mas, uma mulher cananéia, na sua face de duplamente diferente, mulher e pagã, provoca a Jesus. De novo, Jesus lê este gesto de fé da mulher como sinal de Deus e faz o milagre, mudando sua posição anterior (Mt 15,21-28). Assim percebemos como durante sua vida Jesus modifica-se provocado pela realidade, que lhe serve de sacramento da vontade de Deus.

Noutro momento, o diferente é rejeitado por Jesus como tentação do demônio. E o mais impressionante é que quando o diferente veio de uma pagã, Jesus percebeu aceno de seu Pai. Mas quando um discípulo seu, aquele que escolhera como pedra de sua Igreja, para defendê-lo do perigo das humilhações e da morte, dissuade-o de subir a Jerusalém, Jesus reconhece aí a tentação. "Sai da minha frente, Satanás! Estás pondo obstáculo no meu caminho, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas dos homens!" (Mt 16,23).

Jesus não podia ser mais enfático em reconhecer nas palavras de Pedro verdadeira tentação no cumprimento de sua missão. Outra vez será o povo. No final da multiplicação dos pães, o entusiasmo se apossa do povo e quer fazer Jesus rei. Retira-se para a montanha, sozinho (Jo 6,15).

Inúmeras outras vezes, os fariseus e outros adversários aproximavam-se de Jesus para tentá-lo. Aí não se tratava tanto de afastá-lo da missão, como surpreendê-lo nalguma contradição, seja em relação à Lei, seja em relação a seu próprio comportamento.

O autor da epístola aos Hebreus resume teologicamente essa dimensão da vida de Jesus. Ele é este "grande Sumo Sacerdote, que atravessou os céus, Jesus, o Filho de Deus", capaz de compadecer-se de nossas fraquezas porque "foi tentado em tudo como nós o somos, mas não cometeu pecado" (Hb 4, 14-15).

Os evangelhos sinóticos adotaram uma teologia narrativa. Criaram três situações de tentação que traduzem muito bem três propostas messiânicas, presentes na expectativa do povo, mas que entravam em frontal confronto com a perspectiva de Jesus.

Moisés dera ao povo o maná no deserto durante anos. O Messias deveria fazer algo ainda maior nesse campo dos bens materiais. Povo pobre, necessitado. O poder de milagres de Jesus podia transformá-lo num Messias que arrastaria as multidões atrás de si na busca do pão material. Ali estava o verdadeiro demônio a tentar Jesus transformar pedras em pão.

Jesus mesmo sente essa solicitação: "Eu vos afirmo e esta é a verdade: vós me procurais, não por causa dos milagres que vistes, mas porque comestes pão e ficastes saciados" (Jo 6,26). Ele promete um pão que dura para a vida eterna. Antes de tudo, sua palavra. Mais tarde, na Ceia, ficará claro o sentido mais profundo do pão de seu corpo. Aí está a tentação a rondar toda a vida de Jesus. E hoje estamos também nós tentados a encurtar o caminho do pão sem passar pelas transformações reais da realidade, do sistema econômico num populismo e assistencialismo fáceis.

Mais sutil, porém, é a glória. Quem mereceria toda a glória na terra, se não o Verbo que se fez carne? João no prólogo testemunha: "Nós vimos sua glória, glória que recebe de seu Pai, como Filho Único, cheio de graça e de verdade" (Jo 1,14).

Onde a tentação? Na inversão da ordem e do plano do Pai. O testemunho da glória estava reservado para dois momentos. Para o supremo instante da morte e para a ressurreição. Lá no Cristo que morre, João evangelista consegue ver a glória já presente. Abre o preâmbulo da paixão de modo solene. "Sabendo Jesus que tinha chegado a hora de passar deste mundo para o Pai" (Jo13,1), "tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até a consumação". Não poderia ser algo mais glorioso caminhar para a morte na lucidez do amor!

A tentação de Jesus consistirá em querer a glória antes do momento da entrega total de amor e sem passar por ela. Antecipação frustrante do mistério pascal. A revelação do esplendor eterno de Jesus não se fará em nenhum Tabor terrestre, mas aos olhos dos que crêem no mistério da morte e ressurreição.
Lição única para as nossas tentações. Também elas querem a glória do pódio sem passar pelo treinamento, o galardão da vitória sem fazer a corrida, o prazer sem o dom, o resultado sem o trabalho esforçado, a virtude sem a repetição dos atos, a festa sem sua preparação, as férias sem o ano de trabalho e de estudo, a novidade sem a rotina do cotidiano. É a grande tentação da pós-modernidade juvenil. Qual novo batman a descer esplendorosamente do pináculo do Templo, sobrevoando intocado as praças da história, do dia-a-dia, do compromisso!

E a terceira tentação é mais feroz e descarada. Não menos real para Jesus e para nós. É o poder na sua face de domínio. É a quintessência da modernidade. O homem absolutamente autônomo. Aquele que por um ato de sua vontade constrói Auschwitz e Gulags. Faz explodir bombas atômicas sobre civis. Bombardeia acampamentos de refugiados. Vende armas para que outros se matem, construindo fortunas sobre os cadáveres dos pobres.

Jesus viu-se confrontado com o poder. Diante de Herodes, calou-se. Não se impôs, não advogou sua causa, não quis jogar e brincar com a supersticiosa visão de Herodes, que o julgava o Batista redivivo. Como teria sido fácil livrar-se daquele homem curioso de vê-lo? Nenhuma concessão.

Diante de Pilatos, mostrou o significado profundo de seu poder. Não se origina da raiz dominadora das forças do mal, mas de Deus, fonte de amor e liberdade. Poder é serviço, é liberdade, é entrega de si. Está aí a vitória sobre a terceira tentação.

Conclusão

Na linguagem dos evangelhos, estas duas cenas marcam a última demão na preparação de Jesus para o ministério. Agora já está pronto. Pode anunciar o Reino de Deus. Pode subir à montanha, como novo Moisés, e proclamar as suas Bem-aventuranças. Pode perambular pela Palestina fazendo o bem. Está maduro para realizar a profecia de Isaías que ele mesmo leu na Sinagoga de Nazaré de proclamar a Boa Nova aos pobres, a libertação aos prisioneiros e oprimidos, de curar os cegos e de anunciar o ano de graça do Senhor (Lc 4,18s).

Gostaríamos de saber a que exato momento Jesus chegou a esta clareza. Foi quando deixou Nazaré e veio decidido ao batismo de João? Experimentou durante o Batismo uma experiência extraordinária de iluminação interior? Foi, depois, nos primeiros tempos na companhia de João Batista? Nunca o saberemos. Parece certo: Jesus tomou um rumo diferente do Batista a ponto de suscitar nele, então prisioneiro, uma dúvida sobre a sua missão (Mt 11,2-6). Para responder a esta dúvida, os evangelhos convidam o cristão leitor a seguir Jesus. Façamo-lo.

Fonte: http://www.jblibanio.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=140

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