03 abril, 2013

Teologia e vida

Russell Shedd

A teologia trata do conhecimento de Deus, e a única fonte fidedigna da teologia verdadeira é a revelação que Deus tem dado de si mesmo.

A Criação já traz em si mesma uma revelação geral de Deus. Romanos 1.20 declara que são indesculpáveis os homens que não vêem os atributos invisíveis de Deus, Seu eterno poder e Sua natureza divina. Sabemos que tudo que existe no Universo, o sol, a lua, as estrelas, a Terra, as plantas e animais, assim como as pessoas, são evidência do poder e inteligência de Deus. A teoria da evolução, além de não ser capaz de explicar a origem de nada, tem grandes dificuldades em mostrar como um micróbio pode desenvolver complexidade e crescer para se tornar um peixe ou um mamífero. Entre os incontáveis fósseis já encontrados, ainda não foram encontrados os "elos perdidos". O fato é que nos mais avançados laboratórios do mundo nunca foi possível criar uma célula viva sem a utilização de outra célula viva.

Uma vez que abandonamos a explicação evolucionista – que não reponde às perguntas mais difíceis – a única opção que nos resta é a conclusão teológica. Se optarmos pela explicação da teologia natural – isto é, que Deus é o criador pessoal, inteligente e todo-poderoso –, estamos no caminho certo. Ele é a fonte da lei gravada nos corações de todos na qual se baseiam os conceitos de justiça e moralidade. Sem a revelação natural, patente na Criação, os homens não teriam culpabilidade. A sua ignorância seria desculpável. Paulo declara, porém, que não glorificar o Criador nem lhe render graças são crimes contra Deus, passíveis de condenação. Os homens que não agradecem a Deus pela vida e por tudo aquilo que os beneficia passarão pelo justo juízo de Deus.

Reconhecemos, no entanto, que a revelação pela natureza não é clara ou completa o suficiente para salvar aqueles que nunca tiveram acesso à revelação especial de Deus. A Bíblia inspirada por Deus é essa revelação especial capaz de apresentar tudo o que é necessário para ser salvo. Prova disso são as palavras de Jesus: "Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas que testificam de mim" (João 5.39).

Com a inspiração do Espírito Santo, profetas e apóstolos escreveram justamente o que Deus queria comunicar (2 Pedro 1.21). Paulo ainda ensina que "toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça" (2 Timóteo 3.16). A palavra "inspirada" quer dizer "comunicada por Deus". Sabemos que a Bíblia não foi ditada, pois seus autores utilizaram estilos próprios de escrita. O conteúdo, no entanto, veio de Deus e foi controlado por Ele para evitar qualquer contaminação de erro nos escritos originais. Jesus disse que "a Escritura não pode falhar" (João 10.35), indicando que não admitia nenhum erro no texto sagrado.

No entanto, saber o que a Bíblia ensina sobre Deus não é a mesma coisa que conhecê-lo. Ainda que o conhecimento de Deus se baseie nas verdades reveladas nas Escrituras, o encontro que produz a vida eterna depende de um contato pessoal com o Criador. Pela fé, crendo naquilo que a Bíblia afirma sobre sua pessoa e no que Jesus Cristo, Seu Filho, fez por nós na cruz e na ressurreição, é possível ter contato vital e pessoal com Deus. Por meio da oração de fé e de um coração ouvinte, essa comunhão inicialmente tênue e precária torna-se forte e constante na busca contínua de Sua presença. A comunhão com outros cristãos, por outro lado, é muito importante para gozar esta vida espiritual. Amizade e lealdade surgem na comunhão entre as pessoas – o mesmo ocorre na comunhão entre Deus e Seus filhos.

Quem se aprofunda no estudo da teologia deve ter uma compreensão mais acurada deste relacionamento que Jesus chamou de "vida abundante". Esta é a vida que vale a pena ser vivida na Terra e no além.

Fonte: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=82

Uma trajetória espiritual & teológica inacabada

por Julio Zabatiero

É uma prática comum entre acadêmicos fazer um balanço da carreira durante a sua década dos cinquenta. Talvez porque nessa década cheguemos a uma encruzilhada do pensamento: por um lado, a maturidade intelectual foi alcançada; por outro, novos desafios se apresentam (não sou daqueles que consideram a maturidade o ponto final, vejo-a como uma transição). Um balanço, então, pode ser útil para decidir os rumos a seguir. Sendo assim, faço aqui um primeiro esboço desse balanço pessoal e acadêmico, iniciando pela dimensão acadêmica.

1. A dimensão acadêmica da trajetória

Primeira fase: do conservadorismo à teologia da missão integral (1976-1990). Em 1976 ingressei no bacharelado em teologia da Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Como qualquer jovem batista naquele tempo, a vocação para o ministério pastoral ou missionário tinha a supremacia. Sequer pensava na possibilidade na carreira de professor ou teólogo. Como sempre gostei de ler e estudar, no bacharelado não houve mudanças e pouco a pouco fui assumindo a tarefa de ensino como meu ministério. Em meados dos anos 1980 tomei conhecimento da Fraternidade Teológica Latino-Americana e integrei o grupo de pessoas que a reativou no Brasil. Até então, era um teólogo evangélico conservador, embora não levasse muito a sério as polêmicas sobre infalibilidade da Escritura, fidelidade doutrinária e exclusividade da salvação nas igrejas evangélicas. Para mim, a teologia era uma extensão da doutrina e não imaginava que a reflexão teológica pudesse ocorrer em um espaço crítico de liberdade e discernimento. O contato e o trabalho com a FTL-Brasil me permitiram avançar para uma compreensão mais ampla da vocação do povo de Deus. Mediante o diálogo entre a teologia da missão integral e a da libertação, construí minha visão da missão como ação integral do povo de Deus e da natureza da teologia como atividade crítica, interdisciplinar e contextual. Contextualidade profética passou a ser a palavra-chave de meus esforços nessa primeira fase.

Segunda Fase: da teologia da missão integral à integralidade da teologia e missão (1990-2000). Ao longo dos anos 1990 me dediquei ao estudo da teoria hermenêutica e do método teológico. A Teologia da Missão Integral (TMI) e a Teologia da Libertação (TdL) estavam na base dessa transição. Em ambas o modo de ler a Bíblia era um ponto fundante da diferenciação entre uma teologia latino-americana e uma teologia meramente reprodutora dos padrões norte-atlânticos. A vivência nas igrejas evangélicas, como pastor e professor de teologia no seminário da IPI em Londrina, e na pastoral bíblica ecumênica como "biblista", manteve unidas a vida e a pesquisa. As mediações sociológica e antropológico-cultural na hermenêutica latino-americana se tornaram meu objeto privilegiado de estudo e, embora praticasse uma exegese sócio-cultural, o exame teórico da natureza do sentido me encaminhou em direção à linguística e à semiótica greimasiana. 

Por outro lado, a insatisfação com o elemento político-ideológico nas TMI e TdL me fizeram estudar a teoria da ação habermasiana, pós-marxista, em busca de compreensão mais adequada da vida social. Nessa década realizei meus estudos de mestrado e doutorado na EST, fundamentais para a gestação de um paradigma sêmio-discursivo na leitura da Bíblia e na elaboração da teologia. Como consequência do diálogo com a semiótica de Greimas e com a teoria da ação comunicativa de Habermas, passei a refletir sobre o estatuto da teologia e seu método, levando o modelo sêmio-discursivo para além da fronteira exegética, inserindo-o na metodologia teológica. Passei a ver minha tarefa como teólogo como a elaboração de um paradigma teórico-metodológico que escapasse das armadilhas da Modernidade e, em modo multidisciplinar, trouxesse a questão da integralidade do campo da missão para o campo da reflexão. Integralidade passou a ser a palavra-chave de meus esforços nessa década.

Terceira Fase: da integralidade à discursividade da vida, missão e teologia (2000-2008). Nesta terceira fase me dediquei à consolidação dos estudos da fase anterior. O exercício do magistério teológico na Faculdade Teológica Sul-Americana e na Escola Superior de Teologia foi fundamental para que eu pudesse testar as possibilidades concretas de um novo paradigma exegético-teológico. Em certo sentido, os estudantes dessas escolas foram as felizes cobaias desse empreendimento. Minha pergunta básica era: o novo paradigma é apenas fruto de uma discussão teórica, ou uma possibilidade concreta, que pessoas sem a minha trajetória de estudos poderiam entender e adotar como relevante em sua vida e missão? A reação positiva da maioria dos estudantes e o rico debate com colegas docentes nas duas escolas teológicas em que lecionei nesse período foram fundamentais para a consolidação do novo paradigma sêmio-discursivo em minha atividade teórica e prática. A partir das noções de semiose e ação, passei a analisar todas as dimensões da vida, e, em função dessa análise, tanto teórica como vivencial, incorporei o paradigma em minha vida pessoal, ministerial e acadêmica. A filosofia de cunho pós-metafísico ou pós-fundacional, inspirada no pragmatismo norte-americano, passando por autores como Rorty, Habermas, Vattimo, Foucault, Putnam, Brandom e outros ofereceu o guarda-chuva conceitual mais amplo que a teoria semiótica demandava - bem como manteve indissolúvel o vínculo entre prática e teoria. Prática discursiva passou a ser a palavra-chave de meus esforços nessa época.

Quarta Fase: da discursividade prática à discursividade complexa (2008...). Em 2008 sai de São Leopoldo e fui para Vitória, trabalhar na Faculdade Unida, onde agora coordeno o Mestrado em Ciências das Religiões. Toda a minha pesquisa anterior a esta data apontava, mesmo quando eu ainda não o percebia, para mais uma mudança paradigmática - o foco deveria recair sobre a religião enquanto atividade humana, e não apenas sobre o cristianismo. A questão da corporeidade, presente no paradigma da discursividade passou a ocupar um espaço maior, agora sob a noção da complexidade evolutiva do cosmos, e da participação humana em um processo vital muito mais amplo do que o sócio-histórico, até então, foco da minha atividade acadêmica. Na fase anterior destaquei a insuficiência dos paradigmas modernos de exegese (histórica) e teologia (dogmática-racional) e desenvolvi o sêmio-discursivo. Agora meu esforço de pesquisa, em pleno andamento, se dirige a uma compreensão cósmica da prática religiosa humana - tanto na perspectiva da longuíssima duração evolutiva, quanto na das durações históricas do desenvolvimento psico-sócio-cultural. Essa ampliação de foco demanda, consequentemente, a ampliação do olhar paradigmático, de modo que pela via do conceito de semiosfera (escola de Tartu, Iuri Lotman), os estudos cognitivos e evolutivos estão sendo incorporados ao paradigma semiótico. Demanda adicional é a da revisão ontológica sob o modelo pós-metafísico de filosofar, revisão esta que me fez voltar a atenção para a filosofia francesa contemporânea, especialmente Deleuze e Badiou, com seus esforços de construção de uma nova ontologia filosófica em diálogo com as ciências em geral e a matemática. Discursividade complexa tem se tornado, até agora, a palavra-chave nesta fase.

Um fio condutor? Se fosse procurar por um fio condutor nesse processo de construção e revisão de minha prática cristã e do meu pensamento acadêmico, esse fio poderia ser descrito como a busca da compreensão dos modos de ser e agir de Deus na sua criação, conforme testemunhados na tradição cristã e nas religiões monoteístas abraâmicas. Essa busca me obrigou a ampliar o horizonte da pesquisa e incorporar os dados e sentidos provenientes de outras tradições religiosas e a questionar a própria concepção de deus que se tornou dominante na teologia cristã ocidental - o teísmo metafísico. Todos os estudos e esforços de construção paradigmáticos que realizei em minha carreira estiveram a serviço da busca espiritual que tem sustentado minha vivência como ser humano. O outro lado da moeda do agir de Deus são os seus efeitos sobre a criação e o ser humano - usando uma palavra da tradição judaico-cristã: salvação. Assim, para concluir esta dimensão deste breve esboço, posso dizer que eu mesmo, como pessoa em busca de salvação, tenho sido a principal cobaia de minhas pesquisas.

2. A dimensão espiritual da trajetória

Meu foco recairá sobre a relação teologia-vida, ou o que chamo de dimensão espiritual da trajetória cristã (embora o termo espiritual esteja duramente marcado pelo dualismo que eu renego pessoal e academicamente). É possível fazer teologia sem nenhum envolvimento pessoal com a fé, mas esse nunca foi o meu caso. Para mim a pesquisa teológica e de ciências das religiões sempre foi parte integrante da vivência da fé. Minhas opções teórico-metodológicas, porém, sempre tornaram essa relação implícita, ficando a cargo de leitoras e leitores que desencavassem nos implícitos essa relação. Então, antes de iniciar meu balancete teológico-pessoal, uma notinha teórica: textos abstratos revestem realidades concretas, é preciso saber lê-los para encontrar, nas abstrações, as realidades vividas e colocadas sob o pensamento.

Primeira fase: tornando-me evangélico (1964-1985). Como a maioria dos brasileiros, nasci em um lar católico, mas não praticante. Apesar de eu ter estudado um ano em colégio católico, nunca tive a igreja como parte da minha vida. Em 1964, em meio às crises de sentido da adolescência, comecei a frequentar reuniões evangélicas e me converti, tornando-me membro da igreja batista de água branca — onde congregavam algumas primas, sobrinhas-netas de minha tia Ana que, evangélica, me despertou a curiosidade em conhecer a igreja. Minha conversão ocorreu em um culto de adolescentes e jovens da igreja e, imediatamente, me uni ao grupo chamado Nova Canção, uma "equipe" que através da música, pintura e pregação fazia trabalhos evangelísticos nas praças e em igrejas. Assim, missão sempre foi a marca de minha espiritualidade, mesmo quando eu nem tinha ideia do que era missão ou espiritualidade. Ingressei naturalmente no curso de teologia da faculdade teológica batista de São Paulo, imaginando ser a obra missionária minha vocação. Logo fui percebendo que ensino e teologia seriam o meu caminho e durante o curso de teologia ingressei na Missão Jovens da Verdade, como professor do seminário do JV em Arujá, onde ensino, vida cristã e missão formavam um vínculo indissolúvel. 

Com o casamento com Eneida, em 1980, a vida aventureira de missionário tupiniquim chegou ao fim. Voltei a São Paulo, onde trabalhei nas Edições Vida Nova e lecionava na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, no Instituto Bíblico do Brasil (depois veio a ser chamado Seminário Bíblico de São Paulo) e era pastor auxiliar na Igreja Batista Peniel. Foram cerca de cinco anos fundamentais para meu desenvolvimento teológico, pois na Vida Nova meu trabalho principal era revisar textos e traduções de livros, enquanto na FTBSP e no IBB, através do ensino, aprendi muito. Na IBP aprendi a prática de ser pastor, do trabalho em equipe, e das dificuldades da vida de uma igreja fora dos padrões denominacionais. Nos dois últimos anos dessa época, fui convidado a trabalhar na SETE (Sociedade de Estudantes de Teologia Evangélica), onde tive o privilégio de conhecer vários seminários, viajar pelo Brasil e me dedicar exclusivamente à reflexão e ensino de teologia. Foi quando também conheci o CEBEP (Centro Evangélico Brasileiro de Estudos Pastorais), onde pude ouvir alguns dos principais teólogos evangélicos latino-americanos. De 1981 a 1985, então, minha produção teológica teve seu início, sob o signo da missão e da brasilidade, bandeira que a FTL-Brasil, me permitiu carregar, e que faz parte de minha identidade pessoal-teológica até hoje. Encerro a descrição desta fase destacando três músicas litúrgicas que podem fazer uma síntese desses anos: "Deus é real", uma das músicas que cantávamos no grupo Nova Canção, que reflete minha conversão e vivência eclesial naquele período. "Que estou fazendo se sou cristão", cantada nas reuniões da FTL, CEBEP e da SETE e que sintetiza minha adoção do ideário da brasilidade e da missão integral. "Romaria", muito cantada nos encontros do CEBEP, lembrava-me de minhas origens familiares caipiras e católicas e celebrava a visão ecumênica da pastoral e da teologia.

Segunda Fase: tornando-me teólogo brasileiro (1986-1999). Minha mudança para Londrina, onde assumi a função de professor do seminário da IPIB em tempo integral foi marcada por conflitos e amizades. Ao adotar o ideário de uma teologia brasileira, da missão integral, da ecumenicidade, (1) fui oficiosamente nomeado herege na faculdade batista da qual saí por falta de opção concreta de ministério; (2) na SETE, tensões com a SEPAL, a organização missionária à qual a SETE pertencia, que estavam prejudicando o missionário que fundou a sociedade, nos levaram, de comum acordo, à minha saída; (3) na FTL encontrei o espaço de liberdade para fazer teologia, sem juízos nem cobranças, mas com responsabilidade e amizade. Em Londrina, vivi em um ambiente muito agradável de trabalho, com a amizade estando acima das questões institucionais; com liberdade para pensar e ensinar — mesmo em um seminário denominacional! Foi então que me transferi para a IPIB onde tive minhas principais experiências pastorais, todas em igrejas pequenas ou de periferia, com uma única exceção, a do trabalho informal com a primeira IPIB de Londrina. No Seminário, como professor em tempo integral, lecionei disciplinas de todas as áreas do currículo, o que me obrigou a ser multidisciplinar na leitura e na reflexão. O convívio com colegas docentes e com os estudantes (a maioria também de tempo integral) me permitiu manter indissolúvel o vínculo entre espiritualidade, missão e reflexão. Foi um tempo de consolidação teológica e pessoal — os filhos crescendo, a carreira se firmando, o compromisso com a igreja mantido.

 Nesse período, além de continuar o trabalho na FTL-B, algum tempo ainda como secretário geral, a maior parte do tempo como membro apenas, ou ainda como membro da diretoria, participei intensamente da pastoral bíblica ecumênica, atuando como assessor do centro ecumênico de estudos bíblicos (CEBI). Foram anos de relativa calma em meio ao turbilhão de atividades. Tempo fundamental para meu amadurecimento como pessoa, pastor, professor e teólogo. Tempo de viver intensamente a espiritualidade como realidade integral de devoção, reflexão e ação; como realidade identitária plural: calvinista, evangelical, ecumênico, militante pela libertação integral. A adoção de uma identidade pessoal plural causou-me vários problemas interessantes. Para quem não convivia comigo, parecia um enigma confuso. Para os que conviviam comigo, um desafio constante — "afinal de contas, quem é esse cara?" Alguns me definiram como "metamorfose ambulante", eu mesmo prefiro ver minha identidade como a de um peregrino permanente, uma identidade abraâmica, nômade. Nos últimos anos de 1990 pude fazer o mestrado e o doutorado, enfim, após cerca de quinze anos de docência. Estudar na escola superior de teologia (EST) me possibilitou dar consistência à reflexão teológica e deu continuidade à minha identidade peregrina: calvinista, evangelical, missão integral, libertação, ecumenicidade, diálogo inter-religioso, brasilidade. Dois discos podem sintetizar este período: De Vento em Popa (vencedores por cristo), a carta de alforria da música evangélica brasileira, e Missa dos Quilombos (D. Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento) — conjugando a dimensão protestante com a católica-popular, a identidade latina e a africana, enfim: a ecumenicidade dialogal.

Terceira Fase: tornando-me teólogo brasileiro-universal (2000-2008). Como balanço de vida, vou terminar estas reminiscências em 2008, pois não há distanciamento pessoal suficiente para poder falar dos anos atuais. Novo século, agora "doutor", a primeira década do século XXI consolida meu nomadismo acadêmico e pessoal. Nesses nove anos fui professor e diretor da faculdade teológica sul-americana; mudei-me para São Leopoldo onde fui professor da EST; vim, enfim, para Vitória, onde até hoje trabalho na Faculdade Unida. Permaneci no pastorado da IPIB, na FTL-B, no CEBI, militei no movimento evangelical mais amplo, no movimento ecumênico popular, no ecumenismo formal. Um novo espaço de ação foi acrescentado à minha experiência. Tornei-me membro de entidades acadêmicas universitárias: SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos), ANPUH (Associação Nacional de Professores Universitários de História), ANPOF (Associação Nacional de Programas de Pós-graduação em Filosofia), SBL (Society of Biblical Literature) e AAR (American Academy of Religion). Nessa década assumi como foco central de minha vida a carreira acadêmica, sem me desligar da carreira ministerial. 

Foi um período de muito aprendizado — como ser e atuar nos espaços da academia sem vínculo com a religião e a teologia, em alguns casos até com hostilidade para com a religião. Por um lado, essa vivência foi desafiadora — aprender uma nova linguagem, entrar em novos relacionamentos, valorizar novos valores. Por outro, reafirmou o nomadismo pessoal, afinal de contas o que um teólogo está fazendo nesses espaços não-teológicos? Foi meu tempo de flerte e namoro com as ciências “naturais”, e me tornei bígamo: teólogo e cientista. Consequentemente, uma nova estranheza se acrescentou às anteriores nos ambientes eclesiais, teológicos e missionários em que continuei vivendo e militando. Várias vezes me perguntaram se eu ainda era evangélico — e descobri o quão perversa é a fixação identitária. Novos juízes de plantão se deram o direito de me definir: "o Júlio não é mais evangelical", "o Júlio não é mais teólogo da libertação", e outros juízos similares. Como nos tempos antigos, o nômade ainda é visto como ameaça aos sedentários preguiçosos e acomodados — por que sedentários não preguiçosos nem acomodados conseguem conviver com os nômades. Ortodoxia versus Heresia — década de juízos tão inúteis quanto tolos. 

Músicas que podem ajudar a sintetizar este período? "Deus, somente Deus" (em gravação de VPC) indica minha adesão incondicional a um único soberano e juiz, porque todos os demais autonomeados soberanos e juízes não o são, e porque Deus exerce sua soberania e juízo de modo incondicionalmente amoroso: "Deus, somente Deus, Os seus mistérios pode revelar. Os seu desígnios, quem jamais Um dia conheceu. Pois Deus, somente, é Deus". "Caçador de Mim" (em gravação de Milton Nascimento), que entendo como celebração da identidade nômade: "Nada a temer senão o correr da luta. Nada a fazer senão esquecer o medo. Abrir o peito à força, numa procura. Fugir às armadilhas da mata escura". "Quanta" (Gilberto Gil), celebração da complexidade e da fragilidade do conhecimento e da arte dos humanos, minúsculos habitantes do cosmos: "Sei que a arte é irmã da ciência. Ambas filhas de um Deus fugaz. Que faz num momento. E no mesmo momento desfaz. Esse vago Deus por trás do mundo. Por detrás do detrás". Ou, se você preferir um poeta bíblico: "Verdadeiramente tu és um Deus que te ocultas" (Is 45,15).

Um fio condutor? O nomadismo.

Uma conclusão provisória

Não seria possível efetivamente concluir a descrição de um ponto de passagem, de uma transição, ou de um limiar (palavra que está entre as minhas preferidas). Mas é preciso, pelo menos, terminar o texto. Para terminar, gostaria de responder a uma pergunta que me tem sido feita constantemente: “como você pode se definir como teólogo brasileiro se as suas fontes teóricas são norte-atlânticas?”.

Sem sofisticação argumentativa, ofereço uma resposta: (a) a brasilidade da teologia não está no referencial teórico, mas no chão da espiritualidade, no compromisso político com o Brasil enquanto sujeito em construção e, especialmente, nas canções que definem o tom da teologia; (b) a brasilidade da teologia não se opõe à universalidade dos modos de pensar, de modo que não importa a origem geográfica de autores e autoras com quem se dialoga, mas do modo como se dialoga e do lugar a partir do qual se dialoga; e (c) finalmente, para provocar (coisa que gosto de fazer, sempre bem-humoradamente), quem não enxerga a brasilidade (ou a latino-americanidade) em minha teologia precisa trocar os óculos!

FONTE: http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=1088

02 abril, 2013

Teología Evangélica

Por Juan Stam

En un reciente artículo, Juan Stam muestra la ubicacióna de la teología vangélica contemporanea, incluyendo la de la Fraternidad Teológica Latinoamericana, en el contexto de la historia de la teología a partir de la Reforma Protestante del siglo XVI hasta nuestros días. En su breve repaso de la teología a lo largo de cinco siglos, aclara el sentido de los apelativos “fundamentalista”, “evangélico” y “liberal” desde su origen histórico en los siglos XVI-XIX. Afirma que la teologia fundamentalista es una reencarnación de la ortodoxia protestante escolástica del siglo XVII, la teología evangélica tiene sus orígenes e inspiración en la Reforma evangélica del siglo XVI, y la teología liberal surge del intento de Schleiermacher de responder al escepticismo racionalista moderno en los mismos términos de los defensores de ese escepticismo. Lo que sigue extrae del artículo completo los párrafos relativos a la posición teológica evangélica.*

Conviene aclarar desde un principio lo que no significa el adjetivo “evangélico”.  No significa fundamentalista, con un dogmatismo rígido y acrítico. Tampoco significa derechista, cerrado, reaccionario, sin conciencia social. No significa legalista o moralista, aunque lucha por forjar una ética personal y social fiel al evangelio y las escrituras. Tampoco significa simplemente “protestante”, como en muchas partes de América Latina, ni menos debe confundirse con los “conservative evangelicals” de los Estados Unidos.  En su sentido verdadero, “evangélico” es un término bellísimo, basado en las buenas nuevas de la gracia de Dios en Cristo, un adjetivo cuyo sentido tenemos que recuperar y proteger.

Este adjetivo aparece por primera vez en 1531, cuando William Tyndale escribió: “los exhortó a continuar en la verdad evangélica”, y el año siguiente Tomás Moro habló de “Tyndale y su hermano evangélico Barns”. Martín Lutero hablaba de la “evangelische Kirche”, a diferencia de la Iglesia Católica Romana, y afirmaba la centralidad inviolable de la justificación por la fe, lo que le ganó el epíteto de “evangélico”. Después siguieron diversos movimientos y hasta denominaciones eclesiásticas que se llamaban evangélicos, que no estaban de acuerdo ni con los ortodoxos ni con los liberales. En esta corriente figuraban grandes predicadores (Charles Simeon, Charles Spurgeon) e importantes pensadores, especialmente en las ciencias bíblicas de la época (Thomas Chalmers, A. B. Bruce, E Schürer, Adolf Schlatter, Karl Heim, H. Wheeler Robinson, H.R. Mackintosh y muchos más). Hicieron valiosos aportes a las ciencias bíblicas y a la iglesia.

De estos movimientos evangélicos el más importante fue el wesleyano. De 1830 en adelante la prédica de Charles G. Finney comenzó a ser levadura de transformación en la iglesia y en la nación del norte. En esas décadas, mucho antes del nacimiento del fundamentalismo, los evangélicos (que así se llamaban) ejercieron un liderazgo valiente y decisivo para la emancipación de los y las esclavos y para el sufragio de la mujer. En esas luchas fue importante la recién fundada Universidad Oberlin (Oberlin College), de la que Finney fue Rector. En realidad, este “proto-evangelicalismo”, antes de las controversias en torno al modernismo, practicaba la misión integral de la que hablamos mucho los evangélicos de hoy.

Realizadas las metas sociales del movimiento, se debilitó mucho casi hasta desaparecer. En las décadas después de la guerra civil estadounidense crecía la teología liberal y aparecieron nuevos desafíos, especialmente los debates sobre la evolución y sobre la “alta crítica” de los textos bíblicos. Un sector amplio de la iglesia respondió muy a la defensiva, al estilo de la ortodoxia del sigo XVII, y comenzó la guerra teológica entre los fundamentalistas y los modernistas (o “liberales”).

A mediados de la década de los 40, un grupo de cristianos básicamente conservadores, reunidos alrededor del Seminario Fuller y la figura de Billy Graham, rompió con los fundamentalistas y rechazó ese título. Abogaron por una teología más centrada y abierta, una ética no legalista sino fundamentada en convicciones personales maduras, y una nueva preocupación social. No definían su fe por los dogmas de la ortodoxia y el fundamentalismo sino, como su nombre indica, se basaban en los hechos salvíficos que son las buenas nuevas para la humanidad. Se esforzaron escrupulosamente en ser objetivos y justos con otros teólogos en vez de traficar en caricaturas. Era claramente un fenómeno nuevo en el escenario teológico.

En 1947 Harold Ockenga, entonces presidente del Seminario Fuller, acuñó el término de “neo-evangelicalismo” para identificar este nuevo movimiento. Sin embargo, este título no se impuso y dentro de una década, más o menos, por razones no muy claras, fue sustituido por “evangélicos conservadores”. El nuevo apellido correspondía a una clara derechización del movimiento, en estrecha alianza con el Partido Republicano, y una cierta vuelta hacia el viejo fundamentalismo. Así en una medida significativa los “conservative evangelicals”, que ya eran numerosos y poderosos, eran de hecho “neo-fundamentalistas”, más sofisticados y cultos pero bastante parecidos en teología y política.
Frente a ese retroceso surgieron “los evangélicos radicales” (progresistas) que buscaban recuperar el impuso original del movimiento y llevarlo más adelante. Estos ampliaron considerablemente la libertad del pensamiento, dentro de los parámetros de “las sagradas escrituras y la sana razón” de Lutero o el cuadrilátero de Juan Wesley. Por otra parte, estos evangélicos, en sus publicaciones, congresos y praxis, han promovido un radical compromiso social. En su lucha incesante por la justicia, este movimiento representa una especie de “izquierda evangélica”.

Como el nombre indica, la teología evangélica es la teología de las buenas nuevas de la vida, muerte y resurrección corpórea de Jesucristo. Como tal, la teología evangélica no se fundamenta en conceptos generales de religión ni en el sentimiento piadoso nuestro sino en la acción histórica de Dios para nuestra salvación, conocida también como el kerigma. Esas buenas nuevas son el evangelio de Dios (Rom 1:1; 1Ts 2:9) y de Jesucristo (Mr 1:1; Rom 1:9; de la gloria de Cristo, 2Cor 4:4), el evangelio de la gracia de Dios (Hch 20:24), el evangelio de la salvación (Rom 1:16; cf Ef 1.13) el evangelio del reino (Mt 9.35; cf. Hch 28:31) y “buenas nuevas a los pobres” (Mat 11:5; Lc 4:18). En su conjunto, estas frases descriptivas resumen mucho de lo que es la teología evangélica. Es una teología desde la fe, en busca de inteligencia y eficacia.

Los evangélicos damos mucha prioridad a la normatividad de las escrituras y por eso a la cuidadosa exégesis bíblica, incluso con el empleo de los métodos críticos de la moderna ciencia bíblica. Tampoco insistimos en la interpretación literal de los primeros capítulos de Génesis. El libro de Bernard Ramm sobre la Biblia y la Ciencia abrió el camino hacia nuevos enfoques del tema de la creación, de modo que la polémica anti-evolucionista no pertenece a la agenda evangélica. De igual manera han liberado la exégesis del Apocalipsis del literalismo a priori que distorsionaba su interpretación. En vez de rechazar a priori toda autoridad, los evangélicos persiguen la meta de “autoridad (las escrituras) sin autoritarismo, tradición (la historia) sin tradicionalismo, y dogma (la teología) sin dogmatismo”.

A diferencia de los ortodoxos del siglo XVII y los fundamentalistas del siglo XX, los evangélicos radicales buscan enseñar “todo el consejo de Dios”, no sólo una agenda polémica reduccionista. Buscan también ser radicalmente autocrítica, para cuestionar su propia tradición, y radicalmente honestos para aprender de otras tradiciones y movimientos (p.ej. de Karl Barth). Buscan también ser radicalmente comprometido con América Latina hoy, en la lucha por la justicia y la paz. Mantiene su identificación con los sectores evangélicos y pentecostales de la iglesia latinoamericana, esperando en Dios transformarla día a día en una iglesia más fiel a la Palabra.

Dos movimientos más recientes han enriquecido nuestro debate teológico. La teología de la liberación, en cuanto teología autóctona latinoamericana, ha sido en gran medida compatible con la teología evangélica radical. Muchos de ellos han hecho valiosos aportes bíblicos, pero otros han incorporado elementos de la teología liberal europea y norteamericana. Por otra parte, en recientes décadas la Fraternidad Teológica Latinoamericana ha logrado, y está logrando, renovar el protestantismo latinoamericana con una dinámica nunca vista antes. Los cinco Congresos Latinoamericano de Evangelización (CLADE), las publicaciones y diversos ministerios de la Fundación Kairós (como por ejemplo el Centro de Estudios Teológicos Interdisciplinarios, CETI) de Buenos Aires nos han vigorizado y nos han hecho madurar. Es un ejemplo inspirador de lo que se puede lograr, desde la Palabra de Dios, dentro de la gran comunidad evangélico-pentecostal.

José Miguez Bonino, con palabras profundamente conmovedoras, se describió como evangélico y fue miembro de la Fraternidad Teológica Latinoamericana. “Pero si se trata de definirme en mi fuero interior, lo que me sale de adentro es que soy evangélico. En ese suelo parecen haberse ido hundiendo a lo largo de más de setenta años las raíces de mi vida religiosa y de mi militancia eclesiástica. De esa fuente parecen haber brotado las alegrías y los conflictos, las satisfacciones y las frustraciones que se han ido tejiendo a lo largo del tiempo. Allí brotaron las amistades más profundas y allí se gestaron distanciamientos dolorosos… Si en verdad soy evangélico o no, tampoco me corresponde a mí decirlo. Ni me preocupa que otros lo afirmen o nieguen. Lo que en verdad soy corresponde a la gracia de Dios” (Rostros del protestantismo latinoamericano, BsAs/Grand Rapids 1995, pp. 5-6).

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Fonte: http://www.kairos.org.ar/blog/?p=748