03 abril, 2013

Uma trajetória espiritual & teológica inacabada

por Julio Zabatiero

É uma prática comum entre acadêmicos fazer um balanço da carreira durante a sua década dos cinquenta. Talvez porque nessa década cheguemos a uma encruzilhada do pensamento: por um lado, a maturidade intelectual foi alcançada; por outro, novos desafios se apresentam (não sou daqueles que consideram a maturidade o ponto final, vejo-a como uma transição). Um balanço, então, pode ser útil para decidir os rumos a seguir. Sendo assim, faço aqui um primeiro esboço desse balanço pessoal e acadêmico, iniciando pela dimensão acadêmica.

1. A dimensão acadêmica da trajetória

Primeira fase: do conservadorismo à teologia da missão integral (1976-1990). Em 1976 ingressei no bacharelado em teologia da Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Como qualquer jovem batista naquele tempo, a vocação para o ministério pastoral ou missionário tinha a supremacia. Sequer pensava na possibilidade na carreira de professor ou teólogo. Como sempre gostei de ler e estudar, no bacharelado não houve mudanças e pouco a pouco fui assumindo a tarefa de ensino como meu ministério. Em meados dos anos 1980 tomei conhecimento da Fraternidade Teológica Latino-Americana e integrei o grupo de pessoas que a reativou no Brasil. Até então, era um teólogo evangélico conservador, embora não levasse muito a sério as polêmicas sobre infalibilidade da Escritura, fidelidade doutrinária e exclusividade da salvação nas igrejas evangélicas. Para mim, a teologia era uma extensão da doutrina e não imaginava que a reflexão teológica pudesse ocorrer em um espaço crítico de liberdade e discernimento. O contato e o trabalho com a FTL-Brasil me permitiram avançar para uma compreensão mais ampla da vocação do povo de Deus. Mediante o diálogo entre a teologia da missão integral e a da libertação, construí minha visão da missão como ação integral do povo de Deus e da natureza da teologia como atividade crítica, interdisciplinar e contextual. Contextualidade profética passou a ser a palavra-chave de meus esforços nessa primeira fase.

Segunda Fase: da teologia da missão integral à integralidade da teologia e missão (1990-2000). Ao longo dos anos 1990 me dediquei ao estudo da teoria hermenêutica e do método teológico. A Teologia da Missão Integral (TMI) e a Teologia da Libertação (TdL) estavam na base dessa transição. Em ambas o modo de ler a Bíblia era um ponto fundante da diferenciação entre uma teologia latino-americana e uma teologia meramente reprodutora dos padrões norte-atlânticos. A vivência nas igrejas evangélicas, como pastor e professor de teologia no seminário da IPI em Londrina, e na pastoral bíblica ecumênica como "biblista", manteve unidas a vida e a pesquisa. As mediações sociológica e antropológico-cultural na hermenêutica latino-americana se tornaram meu objeto privilegiado de estudo e, embora praticasse uma exegese sócio-cultural, o exame teórico da natureza do sentido me encaminhou em direção à linguística e à semiótica greimasiana. 

Por outro lado, a insatisfação com o elemento político-ideológico nas TMI e TdL me fizeram estudar a teoria da ação habermasiana, pós-marxista, em busca de compreensão mais adequada da vida social. Nessa década realizei meus estudos de mestrado e doutorado na EST, fundamentais para a gestação de um paradigma sêmio-discursivo na leitura da Bíblia e na elaboração da teologia. Como consequência do diálogo com a semiótica de Greimas e com a teoria da ação comunicativa de Habermas, passei a refletir sobre o estatuto da teologia e seu método, levando o modelo sêmio-discursivo para além da fronteira exegética, inserindo-o na metodologia teológica. Passei a ver minha tarefa como teólogo como a elaboração de um paradigma teórico-metodológico que escapasse das armadilhas da Modernidade e, em modo multidisciplinar, trouxesse a questão da integralidade do campo da missão para o campo da reflexão. Integralidade passou a ser a palavra-chave de meus esforços nessa década.

Terceira Fase: da integralidade à discursividade da vida, missão e teologia (2000-2008). Nesta terceira fase me dediquei à consolidação dos estudos da fase anterior. O exercício do magistério teológico na Faculdade Teológica Sul-Americana e na Escola Superior de Teologia foi fundamental para que eu pudesse testar as possibilidades concretas de um novo paradigma exegético-teológico. Em certo sentido, os estudantes dessas escolas foram as felizes cobaias desse empreendimento. Minha pergunta básica era: o novo paradigma é apenas fruto de uma discussão teórica, ou uma possibilidade concreta, que pessoas sem a minha trajetória de estudos poderiam entender e adotar como relevante em sua vida e missão? A reação positiva da maioria dos estudantes e o rico debate com colegas docentes nas duas escolas teológicas em que lecionei nesse período foram fundamentais para a consolidação do novo paradigma sêmio-discursivo em minha atividade teórica e prática. A partir das noções de semiose e ação, passei a analisar todas as dimensões da vida, e, em função dessa análise, tanto teórica como vivencial, incorporei o paradigma em minha vida pessoal, ministerial e acadêmica. A filosofia de cunho pós-metafísico ou pós-fundacional, inspirada no pragmatismo norte-americano, passando por autores como Rorty, Habermas, Vattimo, Foucault, Putnam, Brandom e outros ofereceu o guarda-chuva conceitual mais amplo que a teoria semiótica demandava - bem como manteve indissolúvel o vínculo entre prática e teoria. Prática discursiva passou a ser a palavra-chave de meus esforços nessa época.

Quarta Fase: da discursividade prática à discursividade complexa (2008...). Em 2008 sai de São Leopoldo e fui para Vitória, trabalhar na Faculdade Unida, onde agora coordeno o Mestrado em Ciências das Religiões. Toda a minha pesquisa anterior a esta data apontava, mesmo quando eu ainda não o percebia, para mais uma mudança paradigmática - o foco deveria recair sobre a religião enquanto atividade humana, e não apenas sobre o cristianismo. A questão da corporeidade, presente no paradigma da discursividade passou a ocupar um espaço maior, agora sob a noção da complexidade evolutiva do cosmos, e da participação humana em um processo vital muito mais amplo do que o sócio-histórico, até então, foco da minha atividade acadêmica. Na fase anterior destaquei a insuficiência dos paradigmas modernos de exegese (histórica) e teologia (dogmática-racional) e desenvolvi o sêmio-discursivo. Agora meu esforço de pesquisa, em pleno andamento, se dirige a uma compreensão cósmica da prática religiosa humana - tanto na perspectiva da longuíssima duração evolutiva, quanto na das durações históricas do desenvolvimento psico-sócio-cultural. Essa ampliação de foco demanda, consequentemente, a ampliação do olhar paradigmático, de modo que pela via do conceito de semiosfera (escola de Tartu, Iuri Lotman), os estudos cognitivos e evolutivos estão sendo incorporados ao paradigma semiótico. Demanda adicional é a da revisão ontológica sob o modelo pós-metafísico de filosofar, revisão esta que me fez voltar a atenção para a filosofia francesa contemporânea, especialmente Deleuze e Badiou, com seus esforços de construção de uma nova ontologia filosófica em diálogo com as ciências em geral e a matemática. Discursividade complexa tem se tornado, até agora, a palavra-chave nesta fase.

Um fio condutor? Se fosse procurar por um fio condutor nesse processo de construção e revisão de minha prática cristã e do meu pensamento acadêmico, esse fio poderia ser descrito como a busca da compreensão dos modos de ser e agir de Deus na sua criação, conforme testemunhados na tradição cristã e nas religiões monoteístas abraâmicas. Essa busca me obrigou a ampliar o horizonte da pesquisa e incorporar os dados e sentidos provenientes de outras tradições religiosas e a questionar a própria concepção de deus que se tornou dominante na teologia cristã ocidental - o teísmo metafísico. Todos os estudos e esforços de construção paradigmáticos que realizei em minha carreira estiveram a serviço da busca espiritual que tem sustentado minha vivência como ser humano. O outro lado da moeda do agir de Deus são os seus efeitos sobre a criação e o ser humano - usando uma palavra da tradição judaico-cristã: salvação. Assim, para concluir esta dimensão deste breve esboço, posso dizer que eu mesmo, como pessoa em busca de salvação, tenho sido a principal cobaia de minhas pesquisas.

2. A dimensão espiritual da trajetória

Meu foco recairá sobre a relação teologia-vida, ou o que chamo de dimensão espiritual da trajetória cristã (embora o termo espiritual esteja duramente marcado pelo dualismo que eu renego pessoal e academicamente). É possível fazer teologia sem nenhum envolvimento pessoal com a fé, mas esse nunca foi o meu caso. Para mim a pesquisa teológica e de ciências das religiões sempre foi parte integrante da vivência da fé. Minhas opções teórico-metodológicas, porém, sempre tornaram essa relação implícita, ficando a cargo de leitoras e leitores que desencavassem nos implícitos essa relação. Então, antes de iniciar meu balancete teológico-pessoal, uma notinha teórica: textos abstratos revestem realidades concretas, é preciso saber lê-los para encontrar, nas abstrações, as realidades vividas e colocadas sob o pensamento.

Primeira fase: tornando-me evangélico (1964-1985). Como a maioria dos brasileiros, nasci em um lar católico, mas não praticante. Apesar de eu ter estudado um ano em colégio católico, nunca tive a igreja como parte da minha vida. Em 1964, em meio às crises de sentido da adolescência, comecei a frequentar reuniões evangélicas e me converti, tornando-me membro da igreja batista de água branca — onde congregavam algumas primas, sobrinhas-netas de minha tia Ana que, evangélica, me despertou a curiosidade em conhecer a igreja. Minha conversão ocorreu em um culto de adolescentes e jovens da igreja e, imediatamente, me uni ao grupo chamado Nova Canção, uma "equipe" que através da música, pintura e pregação fazia trabalhos evangelísticos nas praças e em igrejas. Assim, missão sempre foi a marca de minha espiritualidade, mesmo quando eu nem tinha ideia do que era missão ou espiritualidade. Ingressei naturalmente no curso de teologia da faculdade teológica batista de São Paulo, imaginando ser a obra missionária minha vocação. Logo fui percebendo que ensino e teologia seriam o meu caminho e durante o curso de teologia ingressei na Missão Jovens da Verdade, como professor do seminário do JV em Arujá, onde ensino, vida cristã e missão formavam um vínculo indissolúvel. 

Com o casamento com Eneida, em 1980, a vida aventureira de missionário tupiniquim chegou ao fim. Voltei a São Paulo, onde trabalhei nas Edições Vida Nova e lecionava na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, no Instituto Bíblico do Brasil (depois veio a ser chamado Seminário Bíblico de São Paulo) e era pastor auxiliar na Igreja Batista Peniel. Foram cerca de cinco anos fundamentais para meu desenvolvimento teológico, pois na Vida Nova meu trabalho principal era revisar textos e traduções de livros, enquanto na FTBSP e no IBB, através do ensino, aprendi muito. Na IBP aprendi a prática de ser pastor, do trabalho em equipe, e das dificuldades da vida de uma igreja fora dos padrões denominacionais. Nos dois últimos anos dessa época, fui convidado a trabalhar na SETE (Sociedade de Estudantes de Teologia Evangélica), onde tive o privilégio de conhecer vários seminários, viajar pelo Brasil e me dedicar exclusivamente à reflexão e ensino de teologia. Foi quando também conheci o CEBEP (Centro Evangélico Brasileiro de Estudos Pastorais), onde pude ouvir alguns dos principais teólogos evangélicos latino-americanos. De 1981 a 1985, então, minha produção teológica teve seu início, sob o signo da missão e da brasilidade, bandeira que a FTL-Brasil, me permitiu carregar, e que faz parte de minha identidade pessoal-teológica até hoje. Encerro a descrição desta fase destacando três músicas litúrgicas que podem fazer uma síntese desses anos: "Deus é real", uma das músicas que cantávamos no grupo Nova Canção, que reflete minha conversão e vivência eclesial naquele período. "Que estou fazendo se sou cristão", cantada nas reuniões da FTL, CEBEP e da SETE e que sintetiza minha adoção do ideário da brasilidade e da missão integral. "Romaria", muito cantada nos encontros do CEBEP, lembrava-me de minhas origens familiares caipiras e católicas e celebrava a visão ecumênica da pastoral e da teologia.

Segunda Fase: tornando-me teólogo brasileiro (1986-1999). Minha mudança para Londrina, onde assumi a função de professor do seminário da IPIB em tempo integral foi marcada por conflitos e amizades. Ao adotar o ideário de uma teologia brasileira, da missão integral, da ecumenicidade, (1) fui oficiosamente nomeado herege na faculdade batista da qual saí por falta de opção concreta de ministério; (2) na SETE, tensões com a SEPAL, a organização missionária à qual a SETE pertencia, que estavam prejudicando o missionário que fundou a sociedade, nos levaram, de comum acordo, à minha saída; (3) na FTL encontrei o espaço de liberdade para fazer teologia, sem juízos nem cobranças, mas com responsabilidade e amizade. Em Londrina, vivi em um ambiente muito agradável de trabalho, com a amizade estando acima das questões institucionais; com liberdade para pensar e ensinar — mesmo em um seminário denominacional! Foi então que me transferi para a IPIB onde tive minhas principais experiências pastorais, todas em igrejas pequenas ou de periferia, com uma única exceção, a do trabalho informal com a primeira IPIB de Londrina. No Seminário, como professor em tempo integral, lecionei disciplinas de todas as áreas do currículo, o que me obrigou a ser multidisciplinar na leitura e na reflexão. O convívio com colegas docentes e com os estudantes (a maioria também de tempo integral) me permitiu manter indissolúvel o vínculo entre espiritualidade, missão e reflexão. Foi um tempo de consolidação teológica e pessoal — os filhos crescendo, a carreira se firmando, o compromisso com a igreja mantido.

 Nesse período, além de continuar o trabalho na FTL-B, algum tempo ainda como secretário geral, a maior parte do tempo como membro apenas, ou ainda como membro da diretoria, participei intensamente da pastoral bíblica ecumênica, atuando como assessor do centro ecumênico de estudos bíblicos (CEBI). Foram anos de relativa calma em meio ao turbilhão de atividades. Tempo fundamental para meu amadurecimento como pessoa, pastor, professor e teólogo. Tempo de viver intensamente a espiritualidade como realidade integral de devoção, reflexão e ação; como realidade identitária plural: calvinista, evangelical, ecumênico, militante pela libertação integral. A adoção de uma identidade pessoal plural causou-me vários problemas interessantes. Para quem não convivia comigo, parecia um enigma confuso. Para os que conviviam comigo, um desafio constante — "afinal de contas, quem é esse cara?" Alguns me definiram como "metamorfose ambulante", eu mesmo prefiro ver minha identidade como a de um peregrino permanente, uma identidade abraâmica, nômade. Nos últimos anos de 1990 pude fazer o mestrado e o doutorado, enfim, após cerca de quinze anos de docência. Estudar na escola superior de teologia (EST) me possibilitou dar consistência à reflexão teológica e deu continuidade à minha identidade peregrina: calvinista, evangelical, missão integral, libertação, ecumenicidade, diálogo inter-religioso, brasilidade. Dois discos podem sintetizar este período: De Vento em Popa (vencedores por cristo), a carta de alforria da música evangélica brasileira, e Missa dos Quilombos (D. Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento) — conjugando a dimensão protestante com a católica-popular, a identidade latina e a africana, enfim: a ecumenicidade dialogal.

Terceira Fase: tornando-me teólogo brasileiro-universal (2000-2008). Como balanço de vida, vou terminar estas reminiscências em 2008, pois não há distanciamento pessoal suficiente para poder falar dos anos atuais. Novo século, agora "doutor", a primeira década do século XXI consolida meu nomadismo acadêmico e pessoal. Nesses nove anos fui professor e diretor da faculdade teológica sul-americana; mudei-me para São Leopoldo onde fui professor da EST; vim, enfim, para Vitória, onde até hoje trabalho na Faculdade Unida. Permaneci no pastorado da IPIB, na FTL-B, no CEBI, militei no movimento evangelical mais amplo, no movimento ecumênico popular, no ecumenismo formal. Um novo espaço de ação foi acrescentado à minha experiência. Tornei-me membro de entidades acadêmicas universitárias: SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos), ANPUH (Associação Nacional de Professores Universitários de História), ANPOF (Associação Nacional de Programas de Pós-graduação em Filosofia), SBL (Society of Biblical Literature) e AAR (American Academy of Religion). Nessa década assumi como foco central de minha vida a carreira acadêmica, sem me desligar da carreira ministerial. 

Foi um período de muito aprendizado — como ser e atuar nos espaços da academia sem vínculo com a religião e a teologia, em alguns casos até com hostilidade para com a religião. Por um lado, essa vivência foi desafiadora — aprender uma nova linguagem, entrar em novos relacionamentos, valorizar novos valores. Por outro, reafirmou o nomadismo pessoal, afinal de contas o que um teólogo está fazendo nesses espaços não-teológicos? Foi meu tempo de flerte e namoro com as ciências “naturais”, e me tornei bígamo: teólogo e cientista. Consequentemente, uma nova estranheza se acrescentou às anteriores nos ambientes eclesiais, teológicos e missionários em que continuei vivendo e militando. Várias vezes me perguntaram se eu ainda era evangélico — e descobri o quão perversa é a fixação identitária. Novos juízes de plantão se deram o direito de me definir: "o Júlio não é mais evangelical", "o Júlio não é mais teólogo da libertação", e outros juízos similares. Como nos tempos antigos, o nômade ainda é visto como ameaça aos sedentários preguiçosos e acomodados — por que sedentários não preguiçosos nem acomodados conseguem conviver com os nômades. Ortodoxia versus Heresia — década de juízos tão inúteis quanto tolos. 

Músicas que podem ajudar a sintetizar este período? "Deus, somente Deus" (em gravação de VPC) indica minha adesão incondicional a um único soberano e juiz, porque todos os demais autonomeados soberanos e juízes não o são, e porque Deus exerce sua soberania e juízo de modo incondicionalmente amoroso: "Deus, somente Deus, Os seus mistérios pode revelar. Os seu desígnios, quem jamais Um dia conheceu. Pois Deus, somente, é Deus". "Caçador de Mim" (em gravação de Milton Nascimento), que entendo como celebração da identidade nômade: "Nada a temer senão o correr da luta. Nada a fazer senão esquecer o medo. Abrir o peito à força, numa procura. Fugir às armadilhas da mata escura". "Quanta" (Gilberto Gil), celebração da complexidade e da fragilidade do conhecimento e da arte dos humanos, minúsculos habitantes do cosmos: "Sei que a arte é irmã da ciência. Ambas filhas de um Deus fugaz. Que faz num momento. E no mesmo momento desfaz. Esse vago Deus por trás do mundo. Por detrás do detrás". Ou, se você preferir um poeta bíblico: "Verdadeiramente tu és um Deus que te ocultas" (Is 45,15).

Um fio condutor? O nomadismo.

Uma conclusão provisória

Não seria possível efetivamente concluir a descrição de um ponto de passagem, de uma transição, ou de um limiar (palavra que está entre as minhas preferidas). Mas é preciso, pelo menos, terminar o texto. Para terminar, gostaria de responder a uma pergunta que me tem sido feita constantemente: “como você pode se definir como teólogo brasileiro se as suas fontes teóricas são norte-atlânticas?”.

Sem sofisticação argumentativa, ofereço uma resposta: (a) a brasilidade da teologia não está no referencial teórico, mas no chão da espiritualidade, no compromisso político com o Brasil enquanto sujeito em construção e, especialmente, nas canções que definem o tom da teologia; (b) a brasilidade da teologia não se opõe à universalidade dos modos de pensar, de modo que não importa a origem geográfica de autores e autoras com quem se dialoga, mas do modo como se dialoga e do lugar a partir do qual se dialoga; e (c) finalmente, para provocar (coisa que gosto de fazer, sempre bem-humoradamente), quem não enxerga a brasilidade (ou a latino-americanidade) em minha teologia precisa trocar os óculos!

FONTE: http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=1088

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