Paulo dá duas explicações diferentes da origem da sua teologia. Em Gl 1.11-12, insiste que não a recebeu de homem algum, mas "mediante revelação de Jesus Cristo", referindo-se à sua experiência na estrada de Damasco. Mas em 1 Co 15.3-8 ele se retrata como pessoa que apenas transmite a tradição que recebeu a respeito da morte expiadora de Cristo, Seu sepultamento e Sua ressurreição. Alguns estudiosos (e.g., Drane) sustentam que dois Paulos diferentes estão falando nessas passagens: o primeiro, um individualista entusiasta, cuja teologia era baseada na inspiração imediata do Espírito Santo; o último, um Paulo mais velho e mais sóbrio, cujo individualismo tinha sido refreado pela experiência de conflitos e pela necessidade de chegar a um acordo com o modo de os outros apóstolos entenderem a fé. Outros (e.g., Bruce) argumentam que o fato de Paulo aceitar a tradição radicalmente nova a respeito de Jesus, em contraste com "as tradições de meus pais" (Gl 1.14), foi um resultado direto da revelação na estrada de Damasco, de modo que um complementa o outro.
De qualquer maneira, é um problema saber por que Paulo apresenta o evangelho em termos tão diferentes daqueles que o próprio Jesus usava. Por exemplo, por que a "justificação pela fé" - quase totalmente ausente do ensino de Jesus - é tão destacada no de Paulo, e por que Paulo virtualmente desconsidera o grande tema de Jesus que ó o reino de Deus? Evidentemente, Paulo sentia-se autorizado, como apóstolo de Cristo, a falar em nome dEle (2 Co 13.3) sob a inspiração do Espírito Santo (1 Co 2.12-13,16) de maneiras diferentes daquelas que o Cristo terrestre já tinha falado. Na realidade, seu pensamento é uma combinação fantasticamente criativa de elementos reunidos de muitas origens diferentes, sob a orquestração do Espírito Santo: os ensinos terrestres de Jesus (e.g., 1 Co 7.10-11; 9.14), os seus próprios antecedentes no farisaísmo (e.g., Rm 10.6-9; Gl 4.22-26), as tradições cristãs mais antigas (e.g., 1 Co 15.3-7; Rm 3.24-25; Fp 2.6-11), o pensamento grego secular (e.g., Rm 2.15; Cl 3.18-4.1), o seu próprio discernimento (Ef 3.4) e, acima de tudo, o AT (Rm 15.4; 2 Tm 3.15-16). É claro que há divergência de opiniões quanto à possibilidade de Paulo ter ou não distorcido a mensagem de Jesus com isso.
A Natureza de Deus. Morris indica que em Romanos há 153 menções de Deus, enquanto Cristo aparece 65 vezes. As estatísticas podem enganar, mas nesse caso, parece que demonstram onde se acha o fundamento real do pensamento paulino. Duas palavras chaves iluminam o centro do seu pensamento a respeito de Deus:
Criação. A fé no Deus único que criou tudo quanto existe moldou fundamentalmente a teologia de Paulo.
Ele não podia aceitar a ideia de Deus não ter propósito algum para as nações gentias. "É, porventura, Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios, visto que Deus é um só" (Rm 3.29-30). Sua crença na igualdade entre os judeus e os gentios diante de Deus (Rm 1.16; 10.12; Gl 3.28) baseia-se nessa unicidade de Deus (cf. Dt 6.4) que, diferente das divindades pagãs, não pode ser limitado a uma determinada área geográfica ou nação, mas estende Seu amor salvífico limitado a todos os homens (1 Tm 2.3-5). Todo o ministério de Paulo como apóstolo aos gentios (rejeitado por muitos cristãos judaicos) desenvolveu-se a partir dessa pressuposição.
O fundamento para essa nova união entre judeus e gentios achava-se na Pessoa de Cristo, que, para Paulo, era um segundo Adão (1 Co 15.47), a cabeça de uma humanidade criada de novo, que contrabalançava e remediava a antiga. O pensamento da "nova criação" frequentemente se expressa em Paulo (veja especialmente Rm 5.12-21; 1 Co 15.42-50): os judeus e os gentios foram unidos no "novo homem", o Cristo crucificado que rompe todas as barreiras antigas (Ef 1.11-16). Esse novo homem foi elevado até à destra de Deus (Ef 1.20), onde Ele desempenha o papel previsto para o homem no AT: Ele tem todas as coisas debaixo dos Seus pés (Sl 8.6; Ef 1.22; 1 Co 15,25-27). Como a cabeça de uma nova humanidade, Ele fornece um padrão a ser gravado nos Seus descendentes, assim como a raça de Adão foi marcada por sua queda (l Co 15.49; Rm 5.18-19; Ef 4.22-24; Cl 3.10).
Deus é Aquele que "chama à existência as coisas que não existem" (Rm 4.17). A luz do evangelho, brilhando nos corações dos crentes, é comparável à luz original da Criação (2 Co 4.6). Com esse pano de fundo, o pensamento de Paulo avança numa escala cósmica; Deus tem em mente algo mais glorioso do que apenas uma nova humanidade: a transformação da criação é Seu alvo ulterior (Rm 8.18-25; Cl 1.15-20; Ef 1.9-10).
História. Para Paulo, a história tem um propósito: desenvolve-se em direção a um alvo por um caminho predeterminado por seu único Senhor. Por isso, Paulo continuava a aceitar o AT como a Palavra de Deus e argumentava enfaticamente que o "novo" em Cristo deve ser integrado ao "antigo" previamente dado. Travava batalhas tremendas em relação à natureza exata dessa integração. Os cristãos judaicos que pensavam que a vinda de Jesus não introduzia nenhuma alteração nos propósitos de Deus com relação a Israel foram informados que, pelo contrário, Cristo marca o início de uma nova era em que as portas da salvação são abertas a todos igualmente (Rm 10.13). Os cristãos gentios que argumentavam que os propósitos de Deus para Israel tinham sido anulados ou que a nova era fora plenamente manifestada na vida e na adoração deles foram informados que, pelo contrário, a palavra de Deus para Israel ainda permanece em pé (Rm 9.6; 11.1, 26), e que ainda haverá uma consumação final: o Espírito Santo dá o penhor de alguma coisa ainda mais gloriosa no porvir (2 Co 1.22; 5.5; Ef 1.14). Por detrás de todas as epístolas de Paulo, há a sua preocupação de estabelecer esse equilíbrio sutil entre o antigo e o novo nas várias situações de desequilíbrio.
O Filho de Deus. O AT ajudou Paulo a compreender como Cristo é o último Adão nos propósitos de Deus e levou-o a ver a morte de Cristo como o momento decisivo vital entre as duas eras. Is 53 mostrou-lhe que a morte de Cristo era substitutiva, pelos nossos pecados, de modo que o povo de Deus pudesse ser justificado pela justiça dEle (Rm 4.25; 5.18; Fp 2.7-8). A reflexão sobre Dt 21.23, que parecia de início falar contra Cristo, produziu o conceito revolucionário de que Cristo Se fez "maldição" por nós (Gl 3.13). O ritual do Dia da Expiação (Lv 16) ajudou-o a perceber que Cristo era a oferenda e o lugar de expiação determinados por Deus e o meio pelo qual Seu povo é totalmente purificado (Rm 3.24; 8.3; 2 Co 5.21). O ritual da páscoa em Êx 12 mostrou como Cristo era o nosso "cordeiro da páscoa", sacrificado para redimir da escravidão o povo de Deus e colocá-lo no duro caminho para a glória (1 Co 5.7-8; 11.23-32; Ef 1.7; Cl 1.11-14). Sua reflexão sobre o uso que Jesus fez da visão do "Filho do homem" em Daniel (Dn 7) levou-o a ver que, paradoxalmente, a morte que parecia uma derrota final foi, na realidade, uma vitória tremenda sobre os poderes deste mundo (Gl 6.14; Cl 2.15; 1 Co 2.6-8; Rm 8.31-39). Paulo aprendeu a ver que a ressurreição foi a resposta de Deus à morte de Cristo (Rm 1.4; 6.4; 1 Co 15.15; Fp 2.9-11) e, portanto, a resposta de Deus para a nova humanidade como um todo, que da mesma forma será ressuscitada para a glória (1 Ts 4.14; 1 Co 6.14; 15.20-22; Rm 6.5; 8.11; Fp 3.8-11; Ef 2.4-7; Cl 2.13-14) e que deve começar agora mesmo a expressar aquela nova vida (Rm 6.4,11; Cl 2.20-3.5).
O Povo de Deus. A conversão de Paulo levou-o de um "povo de Deus" para outro. A tensão inevitável produzida por essas reivindicações rivais forçou-o a estabelecer a sua teologia da igreja tomando por base os princípios fundamentais. A questão mais importante nesse esforço foi a justificação, por causa da convicção de que Deus julgará o mundo algum dia (cf. Rm 3.6). Quem, então, será inocentado, "justificado"? Paulo rejeitou o conceito dos seus contemporâneos judaicos (que ele aceitara anteriormente) que a aliança de Deus com Israel era uma garantia de que esse povo receberia o perdão e a absolvição. Se essa fosse a única coisa necessária, por que Cristo havia morrido (Gl 2.21)? O simples fato de o Filho de Deus ter morrido demonstrou a Paulo que a justificação não poderia vir através das "obras da lei" (Gl 2.16; 3.10; Rm 3.20) - i.e., através da dependência, por mais sincera e zelosa que fosse, da condição especial outorgada pela lei que foi dádiva de Deus. Mesmo os antecedentes judaicos mais impecáveis, como o próprio Paulo possuía (Gl 1.14; Fp 3.4-7), eram inúteis. Embora fosse levado a esse ponto de vista por seu encontro repentino com Cristo, Paulo ainda veio a perceber que o AT indica sua própria fraqueza por não oferecer nada mais seguro do que uma existência precária "debaixo de maldição" (Gl 3.10), onde a fraqueza humana pode, a qualquer momento, disparar as maldições alistadas em Dt 28.15-68. Somente Cristo podia dar a certeza da justificação, porque somente Cristo tinha vencido o pecado que tornou a lei incapaz de dar a bênção prometida (Rm 7.7-8; 8.3). Mas essa destronização da lei como o princípio salvífico central demoliu as barreiras de Israel e franqueou a justificação a todos quantos simplesmente aceitassem a Cristo e, mediante o recebimento do Seu Espírito Santo, começassem a evidenciar a fé e o amor a Deus, coisas que o AT ansiava em vão (Dt 6.4; 9.13-14; 29.4; Ez 18.31; 36.26; Rm 5.5; 6.17; Gl 3.14, 23-26). Paulo, portanto, podia declarar que ele, com seu "evangelho livre da lei" oferecido a todos igualmente, estava sendo mais fiel à lei (Rm 3.31) do que aqueles que insistiam que a salvação poderia ser desfrutada somente dentro das fronteiras de Israel. Mediante Cristo, que é o "fim da lei" (Rm 10.4), a lei é liberta da sua escravidão ao pecado (Rm 7.10-11) e das suas limitações nacionalistas (Gl 5.3), sendo restaurada ao seu papel correto de orientadora do povo de Deus. Daí o modo confiante de Paulo lidar com o AT.
Alguns estudiosos (e.g., Knox) argumentam que a teologia de Paulo não contém nenhuma ética essencial, porque seu evangelho da justificação diz respeito à condição escatológica da pessoa diante de Deus, e não afeta a vida diária. Esta opinião só pode ser sustentada se a justificação for tirada do seu contexto essencial na atividade missionária de Paulo — a saber: o debate sobre quem forma o povo de Deus. Pois o povo de Deus não existe apenas escatologicamente: ele também é uma realidade terrestre. Existirá supremamente no fim, na "revelação dos filhos de Deus" (Rm 8.19), mas sua justificação também é presente (Rm 5.1) e o constitui numa entidade distintiva. Quando Paulo escreve que os gentios, que não buscavam a justificação, vieram a alcançá-la (Rm 9.30), ele se refere a algo que é óbvio aqui e agora, quando os gentios se incorporam no novo estilo de vida distintivo da igreja. Deste modo, o "pois" (ou "portanto") de Rm 12.1 (que introduz a seção prática da epístola) é verdadeiramente lógico e continua a exposição da justificação feita em Rm 1-11.
O novo estilo de vida do cristão é, portanto, inerente à teologia de Paulo. Suas notas tônicas são o desenvolvimento do princípio do amor (Rm 12.9-21; 1 Co 13; Cl 3.14; Ef 5.2), através da formação de uma mente cristã (Rm 8.5; 12.2,17; 1 Co 2.15-16; Fp 4.8; Ef 4.17-24), com a presença do Espírito Santo que dá forças para isso (Rm 8.13; 12.11; 1 Ts 1.6; Gl 5.22-25; Ef 3.14-18; 5.18-20), no contexto de uma vida comunitária interdependente (Rm 12; 1 Co 12; Ef 4.1-16; Cl 3.12-4.1), inspirada por uma consciência constante do alvo escatológico iminente (1 Co 7.29-31; Rm 8.23-25; 13.11-14; 2 Co 5.9-10; Gl 6.8; Fp 3.12-14; 1 Ts 5.4-11).
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Bibliografia Completa. J. W. Drane, Paul: Libertine or Legalist? F. F. Bruce, Paul and Jesus; L. L. Morris, "The Theme of Romans," in Apostolic History and the Gospel, ed. W. W. Gasque e R. R Martin; J. Knox, Chapters in a Life of Paul; V. R Furnish, Theology and Ethics in Paul; H. N. Ridderbos, Paul: An Outline of His Theology; J. A. Ziesler, The Meaning of Righteousness in Paul; D. E. H. Whiteley, The Theology of St. Paul; G. Bornkamm, Paul.
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